29 de outubro de 2012

Entrevista de J.K Rowling ao The New York Times


No começo deste mês, o jornal estadunidense diário The New York Times publicou uma entrevista de J.K. Rowling a um jornalista da organização, onde a foram discutidos temas referentes à literatura.
Entre outros assuntos, Jo falou sobre a leitura em sua infância, dizendo que, nessa época, sua mãe lhe dava livros, lembrou-se de sua memória mais clara de alguém lendo para ela e, por fim, falou sobre sua heroína e livros favoritos nesse tempo.
Minha memória mais vívida de ter alguém lendo para mim é do meu pai lendo “O Vento Nos Salgueiros” quando eu tinha por volta dos quatro anos e estava com sarampo.
Além disso, a romancista, em resposta ao entrevistador, contou que a carta mais especial de um fã que recebeu foi a primeira, escrita por uma jovem admiradora.
Tive muitas cartas extraordinárias de fãs, mas direi que foi a primeira que recebi, de uma garotinha chamada Francesca Gray. Significou o mundo para mim.


J.K. Rowling
J. K. Rowling: Sobre o livro

The New York Times
11 de outubro de 2012
Tradução: Antonio Kleber
Revisão: Renato Ritto

A autora de Harry Potter e, agora, “Morte Súbita”, diz que sua personagem literária favorita é Jo March: “É difícil exagerar o que ela significou para uma menina pequena e comum chamada Jo”.
Qual o melhor livro que você leu nesse verão?
Eu amei “A canção de Aquiles”, de Madeline Miller.
Qual foi o ultimo livro verdadeiramente grandioso que você leu?
Team of Rivals” de Doris Kearns Goodwin. Eu vivi dentro dele, da maneira como se vive dentro de livros realmente grandiosos, terminando de ler com os olhos vidrados e me sentindo desconcertada por estar vivendo no século 21. Eu conheci o autor numa recepção da Embaixada Americana em Londres ano passado, e estava tão animada que me balançava para cima e para baixo no meu assento, como se tivesse 5 anos de idade.
Há algum gênero literário como o qual você simplesmente não perde tempo?
“Simplesmente não perde tempo” não seria a expressão que eu usaria, porque meus gostos em leitura são bem católicos. Eu não leio ‘chick lit’, fantasia ou ficção científica, mas darei uma chance a qualquer livro se ele estiver ali em cima e se eu tiver meia hora pra gastar. Com todos os seus benefícios, e eles são muitos, uma das coisas que me entristece com relação à e-books é que eles excluíram a necessidade de se procurar um livro para ler em livrarias estrangeiras ou em casas de veraneio. Eu já me deparei com muitas joias e com muito lixo desta forma, e ambos podem ser divertidos.
Com relação aos gêneros literários em si, eu sempre senti que minha resposta à poesia é inadequada. Eu gostaria de ser o tipo da pessoa que sai pelo jardim com um volume elegante de versos Elisabetanos ou um bocado de haikus, mas minha paixão é o enredo. Aqui e ali eu leio um poema que me toca, mas eu nunca me viro para a poesia em busca de consolo ou prazer da maneira que me jogo na prosa.
Qual foi o ultimo livro que a fez chorar?
A resposta honesta é “Morte Súbita.” Eu chorei enquanto escrevia o final, enquanto o relia e enquanto o editava.
Qual o último livro que a fez rir?
The Diaries of Auberon Waugh”. Está no meu banheiro e é sempre ótimo para uma gargalhada.
Qual o último livro que a deixou furiosa?
Como diria Margaret Thatcher, não quero dar e ele o oxigênio da publicidade.
Se você pudesse ordenar que o presidente lesse um livro, qual seria ele? E o primeiro ministro?
O presidente já leu “Team of Rivals” e eu não consigo pensar em nada melhor para ele. Eu daria ao nosso primeiro ministro o “Justice”, de Michael Sandel.
Quais eram os seus livros favoritos quando criança?
“O Cavalinho Branco”, de Elizabeth Goudge; “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott; “Manxmouse”, de Paul Gallico; tudo de Noel Streatfeild; tudo de E. Nesbit; “Beleza Negra”, de Anna Sewell (de fato, qualquer coisa que tivesse um cavalo).
Você teve um personagem favorito ou um herói quando criança? Você tem um herói literário como adulta?
Minha heroína literária favorita é Jo March. É difícil exagerar o que ela representou para uma pequena garota comum chamada Jo, que tinha um temperamento quente e uma ambição ardente de ser escritora.
Qual o melhor livro que sua mãe te deu ou leu para você?
Ela me deu virtualmente todos os livros mencionados acima. Minha memória mais vívida de ter alguém lendo para mim é do meu pai lendo “O Vento Nos Salgueiros” quando eu tinha por volta dos quatro anos e estava com sarampo. Na verdade isso é tudo o que eu me lembro sobre ter sarampo: Ratty, Mole e Badger.
Que livros os seus filhos apresentaram a você recentemente? Ou você a eles?
Meu filho me apresentou os livros de dragão de Cressida Cowell, que são ótimos e divertidos. Minha filha mais nova é louca por pôneis, então estamos na metade da leitura do compêndio de Pippa Funnell. Eu recentemente comecei a pressionar Kurt Vonnegut Jr. na minha filha mais velha, que é uma cientista.
Se você pudesse se encontrar com um escritor, morto ou vivo, quem seria ele? O que você gostaria de saber?
Eu levei essa pergunta tão a sério que demorei horas nela. Pensei em todos os meus escritores preferidos, descartando-os por vários motivos: P. G. Wodehouse, por exemplo, era tão tímido que esse poderia ser um encontro bem constrangedor. Julgando por suas cartas, seu interesse residia em cães da raça pequinês e escrita metodológica. Como não tenho nenhum pequinês, tenho a impressão de que discutiríamos sobre notebooks ao invés de explorar os segredos de sua genialidade.
Finalmente estreitei o caminho para duas direções: Colette e Dickens. Se Colette estivesse preparada para falar livremente, seria o encontro de uma vida, porque ela teve uma vida muito incrível (a biografia dela, “Secrets of the Flesh”, de Judith Thurman, é uma das minhas favoritas de todos os tempos). Na outra direção, acho que gostaria de conhecer Dickens. O que eu gostaria de saber? Tudo.
Você lembra-se da carta de fã mais especial que recebeu? O que a fez ser especial?
Tive muitas cartas extraordinárias de fãs, mas direi que foi a primeira que recebi, de uma garotinha chamada Francesca Gray. Significou o mundo para mim.
Muitos livros infantis hoje tentam se comparar a Harry Potter. Se o seu novo livro, “Morte Súbita”, fosse ser comparado a outro livro, autor ou série de livros em sua crítica literária dos sonhos, qual seria ele?
Morte Súbita” conscientemente remonta às tradições do século 19 de Trollope, Dickens e Gaskell; a análise de uma sociedade pequena e literalmente paroquial. Qualquer crítica que fizesse referência à qualquer desses escritores me deliciaria.
Dos livros que você escreveu, qual é o seu favorito?
Meu coração é dividido em três partes: “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, “Harry Potter e as Relíquias da Morte” e “Morte Súbita”.
Há uma subindústria editorial imensa sobre livros relacionados a Harry Potter. Você leu algum deles ou qualquer trabalho acadêmico relacionado aos livros?
Não, com exceção de duas páginas sobre um livro que dizia revelar o subtexto cristão da série. Convenceu-me que eu jamais deveria ler qualquer desses livros.
Qual o livro que você gostaria que alguém escrevesse?
The Playboy of the Western World”, o segundo volume da biografia de J.F.K. por Nigel Hamilton e a sequência de “Reckless Youth.”
Se você pudesse levar consigo para uma ilha deserta somente três livros, quais você levaria?
A obra completa de Shakespeare (não é trapacear – tenho um volume único com todas elas); a obra completa de P.G. Wodehouse (dois volumes, mas tenho certeza de que poderia encontrar em um só); e a obra completa de Colette.
Se você pudesse ser qualquer personagem literário, qual seria ele?
Elizabeth Bennet, naturalmente.
Qual o último livro que você simplesmente não conseguiu terminar?
Armadale”, de Wilkie Collins. Eu amei “The Woman in White” e “The Moonstone”, então o levei para a turnê nos Estados Unidos em 2007 esperando me deliciar. Mas a falta de plausibilidade do enredo foi tão exasperante que eu o abandonei na metade, coisa que raramente faço.
Qual o próximo livro que você planeja ler?
Há três livros que eu preciso ler para pesquisa, depositados em minha escrivaninha, mas por prazer, porque eu amo um bom mistério policial e ela é uma mestra, vou ler “The Vanishing Point”, de Val McDermid.

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